quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Apresentação

Escrever não é fácil para mim. Por diversos fatores, mas sobretudo por saber que não consigo distanciar-me nunca do que escrevo. Não gosto de me expor perante os outros e, muitas vezes, nem perante mim. Quantas vezes rasguei textos por não ser capaz de enfrentar o que neles tinha escrevinhado. A escrita por instinto, sem filtros, tem destas coisas. E eu, não sei porquê, tenho tendência para escrever deste modo. Por isso, quem visitar a minha página fique ciente que ela deve ser entendida como o que é: o diário de uma fibromiálgica à procura de alívio.
Se o que escrever não tiver algum benefício para alguém, tê-lo-á para mim. É imperioso que escreva - dizem-me - visto que parte do meu bem-estar reside em perceber como a fibromialgia me afecta, como posso detectar o que despoleta as crises mais dolorosas e como aprender a minimizar a dor.

Hoje, invariavelmente, acordei com a sensação de estar a dever um bom par de horas à cama e um torpor doloroso por todo o corpo. A "velha" dor no sacro e no joelho parecia ter-me dado tréguas. Inspirei profundamente e sentei-me na cama. Tentei esticar-me vagarosamente e senti todos os meus músculos da parte superior do corpo a reclamar o esforço. Levantei-me e fiquei sobre os dois pés dormentes, que doeram assim que sustiveram o meu peso. Os passos em direcção à casa de banho foram entorpecidamente lentos. Liguei a água do chuveiro, despi-me e enfiei-de debaixo da água quente. Deixei passar os minutos à espera de arranjar força interior para lavar o cabelo e o corpo. Quando terminei, saí da "boxe" e sentei-me com uma enorme sensação de cansaço. Tudo na mesma - pensei. 

A fibromialgia foi-me diagnosticada pelo mesmo reumatologista que, cinco anos antes, me tinha observado por queixas dolorosas nas omoplatas, no pescoço e nas articulações dos pés e das mãos. Nessa altura, observou-me, pediu-me que fizesse análises e medicou-me para a dor. Fiz a medicação, fiz as análises e não voltei. Porquê? Bem, a verdade é que depois da medicação senti-me fantástica e as análises encontravam-se, aparentemente, dentro dos parâmetros de referência. Fui à minha vida.
Sou professora, mãe, filha, tia, amiga... Não tinha muito tempo para pensar em tudo o que me acontecia. Quando não estava bem procurava um médico e pronto!

Nos últimos anos as visitas ao médico de família e a especialistas multiplicaram-se. Deixei de me preocupar apenas com a síndrome do cólon irritável e a tensão muscular inerente ao stress da profissão que escolhi, para me passar a preocupar também com cefaleias tremendas que atribuía à sinusite, com um cansaço persistente que achava advir do facto de dormir poucas horas seguidas (e que compensava com algum café para me manter "alerta" e ativa), com torcicolos, contrações  de músculos, tendões. Enfim...

Há dois anos, em janeiro, no dia 5, o despertador tocou, sentei-me na cama e disse ao meu ex-companheiro: "Chega! Hoje não vou trabalhar!" e desatei num choro desesperado. As emoções completamente descontroladas, culpando a minha profissão pelo desgaste que me devastava e por todo o meu mal-estar que me dominava. Foi um choque para ele, para todos e marcou-me uma consulta num psiquiatra. Diagnóstico: "depressão major". Sabia lá eu o que era! Receitou-me antidepressivos, ansiolítico e fez uma carta para o médico de família me declarar temporariamente incapaz para o serviço. Tive uma série de efeito adversos no início, depois fui melhorando lentamente. Limitava-me a tratar da casa, a levar e a trazer a minha filha da escola e a visitar regularmente a família direta. As cefaleias espaçaram-se as dores musculares quase desapareceram e o meu intestino parecia bem melhor. Em contrapartida a minha já periclitante relação amorosa, degradou-se completamente ao ponto de lhe ter posto termo. Queria um vida mais positiva, menos preocupante e frustrante. Em julho tomei a iniciativa de terminar a medicação antidepressiva e fiz o desmame em mês e meio. Sentia que podia voltar a ter uma vida profissional, ansiava por isso. Regressei em setembro e, em janeiro, a minha velha dor no joelho direito tomou proporções fora do vulgar. a dor deixou de estar localizada no joelho e passou a irradiar para o sacro. Depois a dor intensificou-se no sacro e irradiava pela virilha até ao joelho. Como já tinha anteriormente feito radiografias e uma ecografia que nada acusaram, foi solicitado pelo ortopedista uma ressonância magnética. Durante este período tinha rigidez matinal e dor constante. Fiz anti-inflamatório injetável três semanas, porque a dor não desaparecia. Em março regresso à médica de família com queixas de cansaço extremo, problemas gástricos e de concentração, músculos contraídos e os nervos à flor da pele  por estar a tentar contrariar todo este quadro. Receitou-me fluoxetina, um suplemento para a memória e sedoxil. Lá me fui aguentando e com o verão tudo melhorou. Em outubro propus à médica o desmame da fluoxetina, ela sugeriu uma cápsula em dias alternados. Entretanto, a minha colite nervosa estava a piorar de tal forma, que tive de consultar o meu gastroenterologista. Mais medicamentos para tentar contrariar a diarreia crónica, os espasmos e dor. Nem sei como consegui terminar o primeiro período letivo! O cansaço não cedia, mesmo que procurasse repousar mais (o que é difícil com uma filha "com pilhas duracel"). Em janeiro, as dores musculares generalizadas a que se juntaram, a seguir, as dores nas articulações das mãos e dos pés, obrigaram-me a procurar com urgência a médica de família e, em sequência, o reumatologista e o psiquiatra. Diagnóstico: fibromialgia, depressão sazonal e possibilidade de artrite reumatóide. Fiz ecodoppler articular das mãos, punhos e pés, que identificou apenas "tenossinovite de vários tendões flexores do pé direito com sinais inflamatórios e mínimo derrame articular do joelho direito.". A medicação foi alterada: naproxeno, deflazacort, leflunomida e flexiban (reumatologia) deixei a fluoxetina - que parecia não surtir efeito algum - e passei a tomar para  ADT e Dumyrox. Para ajudar o sistema gástrico a suportar isto o Pantoprazol. 

Sempre detestei ter de tomar medicação, mas desta vez não sabia como poderia não o fazer. No momento encontro-me de atestado médico e parcialmente dependente da família que me pode ajudar. A dor e o cansaço fácil impossibilitam-me de ter uma vida normal e a medicação não está a fazer efeito. Não durmo bem, as dores persistem, o cansaço e a falta de força impedem-me de fazer a vida doméstica como gosto. Toda a mobilidade é dolorosa, mesmo em descanso. A verdade é que me sinto presa no meu próprio corpo e, por mais positiva que seja, há momentos em que não consigo deter as emoções. A cada dia que começa espero sempre alguma mudança, mas ela ainda não surgiu. Vou apostar na Fisioterapia, uma vez que o meu reumatologista diz que "tudo o que é possível fazer por mim" já está a ser feito.

Não sei como será o meu dia amanhã, mas desde janeiro que o facto de me levantar todos o dias já é uma vitória. O meu sorriso alarga-se sempre que estou com a minha filha e, por mim e por todos os que me amam, encontrarei um novo caminho. Esta fase passará e voltarei a sentir-me "eu". NÃO DESISTO!





Sem comentários:

Enviar um comentário